sexta-feira, 1 de abril de 2016

Armando [Portezan] Vizetiv


Morreu o inesquecível "super­homem"

LUTO Armando tinha problemas mentais, mas era adorado pelas crianças


"Como Armando Vezetiv ninguém o conhecia. Mas se alguém perguntasse pelo "super-homem" ou "tarzan", não havia ninguém que não o admirasse. Os apelidos lembravam personagens que ele gostava de imitar. O homem que há muitos anos alegrava crianças e adultos pelas ruas da cidade morreu no início da noite de terça-feira, 25, com o coração fraco. Ele foi enterrado seguinte."
"Vegetariano convicto e cheio de manias, Armando era um dos 7 irmãos da família Vezetiv. A irmã Elza conta que ele já tinha problemas mentais na infância, mas isto não o impediu de ler muito. De tanto "devorar" livros virou auto-didata e, inclusive, ajudava estudantes nos trabalhos escolares. Era, ainda, exímio desenhista. Notívago, ele passava as noites lendo e desenhando. Sabia também inglês. Frequentou durante muitos anos as oficinas do DEBATE e, inclusive, comentava notícias."
"Uma de suas manias era fugir de médicos. Donte há semanas, ele finalmente se rendeu aos apelos da família e foi internado na Santa Casa. Aos 68 anos, o coração fraco não resistiu. Armando morreu às 19 h de terça-feira. No enterro, uma criança colocou no caixão um bilhete e um desenho, como que agradecendo a alegria que o amigo dos baixinhos sempre proporcionou. "Foi a homenagem mais emocionante que ele recebeu", admite a irmã Elza."
(Jornal Debate, edição nº 1482, 30 de agosto de 2009).

Um Savant?

Família Portezan Vezetiv - Sr. Elias Vezetiv, dona Palmira Portezan Vezetiv e os filhos presentes, da direita para a esquerda: Armando, Jorge, Elza - no colo da mãe, Neusa, Marli e Maria.
Créditos: foto álbum de família
Armando, segundo sua irmã Elza em entrevista ao semanário santacruzense Debate, tinha problemas mentais desde a infância, ou seja, apresentava padrões e atitudes não ajustadas à normalidade social. Temos conhecimento que frequentara o antigo curso primário, todavia, inconstante ou pela gravidade de seus problemas, abandonou os estudos.
Muitas explicações leigas cercavam o porque Armando ser mentalmente confuso, e a versão mais comum era em razão de muitos estudos. Noutra variante fora atingido na cabeça por um andaime despencado numa das reformas da Igreja Matriz, ou era um andaime móvel dependurado; e Armando algumas se referiu a este acontecimento como a razão "da cabeça fraca". 
Não temos qualquer documento médico de acompanhamento sobre a saúde física e mental de Armando, apenas observações pessoais quanto a sua conduta, a não restar dúvidas sobre o seu comportamento desajustado, embora pacífico - incapaz de agredir fisicamente ou com palavras quem quer que fosse, brincalhão e extremamente educado. Ele dizia que não tinha a cabeça boa e o seu coração era fraco, fazendo uso de medicamentos. Apresentava dificuldades nas funções motoras e de fala, com significativo déficit intelectual e funcional.
Armando era socialmente aceito, frequentava algumas casas e tinha permissão de brincar com os filhos da família, e às crianças ele era todo diversão com suas imitações e mímicas facilmente identificadas.
Gostava de desenhar animais, com formas representativas e sempre aparentemente felizes, usando traços ou pinturas fortes. Admiravelmente seus desenhos não eram perfeitos, nem sempre proporcionais, o que o torna insuspeito de copiador ou mero colador de figuras, afora que muitas vezes desenhava de imediato, muito rápido, apenas apoiado numa parede.
Outro detalhe curioso em seus desenhos eram os nomes dos animais, nem sempre colocados, mas quando sim eram em diferentes idiomas com as respectivas traduções e pronúncias das palavras. Exemplo:
-Paleotério - do grego 'paleos' = antigo, e do latim 'therium' = animal, daí o significado 'animal antigo'. Armando ainda explicava como pronunciar, no caso,  'therium' = téríum, algo bastante difícil.
Sabemos que Armando entendia e se expressava em inglês, alemão, polonês, letão - línguas bálticas, francês, italiano, espanhol [castelhano] e línguas eslavas entre as quais o russo, e tudo isto compreendido por falantes dos respectivos idiomas, conforme testemunhamos. Sua linguagem correta, no entanto, era infantil e tipicamente familiar, porém sabia rapidamente dissociar palavras compostas e lhes dar significado quase sempre certo ou com algum sentido aproximado.
Armando se fazia entender em japonês, árabe e outros idiomas, além daqueles já citados, todavia com certa compulsão por 'línguas mortas': latim, grego antigo e copta. Da mesma forma determinado para os hieroglifos - 'hierós' = sagrado e 'glýphein' = escrita - dos egípcios, hititas, maias e astecas, aliás povos cujas histórias e lendas era exímio conhecedor, assim como das civilizações: babilônia, sumer, caldeia, assíria e os povos descritos na Bíblia.
Nos últimos anos de sua existência, Armando lia e escrevia, com bons resultados, Kanji - chinês e japonês, optando mais pela simplificação ao escrever em chinês e, no caso nipônico, pelo Katakana, Hiragana e Romaji - romano ou ocidentalizado (escrita na horizontal, esquerda para a direita).
Gostava das literaturas e tradições de povos diversos, e aí incluía aqueles das nações Tupi e Guarani, das gentes ciganas e dos judeus - destes preferencialmente em iídiche (do alemão jüdisch = judeu).
-Jamais conseguimos que Armando reproduzisse um texto em indonésio (bahasa - família malaio-polinésia), do qual tínhamos cópia e tradução.
Armando não conseguia, a contento, leitura em sânscrito, contudo apresentava facilidade quando de textos transliterados.
Repassava aos seus admiradores, em escrita manual, dicionários estrangeiros incompletos e sem qualquer índice lógico, podendo começar com qualquer letra e, na sequência, uma outra qualquer.
Envolvidos no meio, conversamos com profissionais de saúde a respeito de Armando, a título de melhor compreendê-lo, e a opinião plausível foi a de se tratar de um 'savant' ou, melhor esclarecido, portador da 'síndrome do sábio' ou 'savantista', fenômeno estudado e documentado em tratados sobre a genialidade de pessoas enquadradas como tal.
-o-





Fenômenos manifestos desde criança

Não sabemos quando Armando apresentou os primeiros sintomas de genialidades para línguas, escritas e desenhos. Oriundo de família estrangeira de diversos segmentos, contava que ouvia os avós se comunicando em idiomas e dialetos distintos, e desde criança tinha facilidades para comunicar-se com os parentes no próprio idioma.
Vezetiv, também Vazietiv, é sobrenome rumeno, mas se sabe de vínculos com outras famílias do leste europeu e russa, antes do aportamento no Brasil. Portesan ou Portezan tem entrada no Brasil como família italiana.
Pessoas nascida no anos de 1940, mesma faixa etária de Armando, relatam que ele já desenhava desde pequeno e falava 'línguas desconexas' atribuídas ao problema mental, mas não era pessoa isolada ou marginalizada, os adultos gostavam dele e sua família era bastante conceituada o que facilitava querências do menino especial.
Admiradores de Armando resolvemos homenageá-lo disponibilizando via internet, num blog, alguns de seus trabalhos, sendo uns e outros já expostos em facebook, com mais de sete mil visualizações e muitos comentários daqueles quando crianças ganharam algum desenho de 'Tarzan', além das manifestações de carinhos e saudades daqueles que conheceram o 'super-herói'.
Mas quem não conheceu o 'Tarzan' em Santa Cruz do Rio Pardo? Apenas aqueles que nasceram após sua morte, mas agora com a possibilidade em rever quadros e escritos que marcaram época entre muitos santacruzenses.
Problemas no escâner de mesa obrigaram-nos fotografar os trabalhos de Armando, daí os cortes e desigualdades apresentadas. Poderíamos esperar, mas o momento era agora, pois temos ainda mais de dois mil itens de documentos antigos, jornais e fotos para disponibilizações àqueles interessados no resgate histórico de Santa Cruz do Rio Pardo.
-o-

Trabalhos de Armando [Portezan] Vezetiv - I































Trabalhos de Armando [Portezan] Vezetiv - II